Relato de parto da mãe Juliana Leal – Nascimento do Rafael – 02/01/2015

Nasci de uma violência obstétrica: minha avó pagou o médico que conduziria o parto da minha mãe para que fizesse cesariana, sem que ela soubesse previamente. Quis poupar sua filha dos sofrimentos de um PN.  No nascimento do meu irmão do meio, minha mãe tentou fazer o parto normal. Falaram pra ela que o bebê corria riscos, que estava em sofrimento fetal.  Ela quis tentar, mas acabou fazendo cesárea. Esse meu irmão tem transtornos de desenvolvimento. Todos os parentes da minha mãe, inclusive eu, culparam-na pela deficiência do meu irmão. Com o passar dos anos, trabalhando com educação física e estudando, comecei a perceber que minha mãe carregava uma culpa que não era dela. Fui saber que o apgar do meu irmão ao nascer havia sido 8, um apgar alto. Ele não apresenta nenhum problema motor. Até hoje não a convenci que os problemas que tem meu irmão, muito provavelmente não derivaram do parto.

 

 

Hoje em dia, auxilio nos cuidados com meu irmão e não pensava em ter filhos, mas revi essa opinião e a natureza, rapidamente, fez sua parte. Nos  últimos dez anos, acompanhei, ainda que de longe, os partos naturais de cerca de uma dezena de amigas. Quando engravidei, pensei que gostaria que meu parto fosse assim. Quanto mais me informava, mais desejava meu filho no peito logo que nascesse, desejava que ele não passasse por procedimentos completamente questionáveis, gostaria de optar pela posição de parir. Mas não pensava em um parto domiciliar. Procurei, então, uma médica com boas referências e alto índice de partos normais com o mínimo de intervenção. Encontrei essa médica e o melhor é que ela atendia em um hospital que meu plano cobria. Estava muito feliz, até participar de um curso de gestante, no qual tal hospital se colocava como hospital “não amigo da criança”, referindo-se ao fato da criança ser levada durante aproximadamente 3 horas, logo que nascia, para ficar em berço aquecido, fazer exames, tomar banho. Eu também não poderia escolher a posição mais confortável para parir. Na consulta seguinte, minha médica confirmou que aquele hospital era assim mesmo, mas que ela já tinha conduzido partos muito legais lá. Eu poderia pagar um pediatra à parte, pra conseguir ficar uns minutos a mais com meu filho quando ele nascesse.

 

 

Após esse balde de água fria e depois de assistir “O renascimento do parto”, meu companheiro  (esse virou militante da causa, rs) e eu passamos a cogitar um parto domiciliar. Ligamos para a Vilma Nishi, que realizou o parto da maioria das minhas amigas e soubemos que ela não saía mais de São Paulo. Como moramos na baixada santista, ela nos deu o telefone de duas pessoas, que talvez topassem descer para nos auxiliar na ideia do parto domiciliar. Ligamos para a Ivanilde que, segundo a Vilma, era “das antigas como ela”.

 

 

Mas eu estava com o índice de resistência das artérias uterinas aumentado, e isso poderia afetar o crescimento do bebê, aumentava o risco de parto prematuro; mais tarde tive uma queda importante do hematócrito e uma discreta redução no índice de líquido amniótico. Revirei o google e virei especialista, rs. Inseguros, passamos por toda a gestação com o plano A e o plano B, parto domiciliar e parto hospitalar. Ficamos muito satisfeitos com as dicas da parteira Ivanilde – que, aliás, topou descer a serra pra apoiar o parto domiciliar do pequeno Rafael. Tudo isso, somado ao ótimo acompanhamento pré-natal com minha médica em Santos e um pouco de sorte, ou de fé, depende do ponto de vista, no final da gestação já não apresentava problema algum…

 

 

Um único porém subsistia: a data prevista para o nascimento do Rafa era 30/12/2014. – “Qual o problema?”, dirão alguns…  – “ora, essa data é muito ruim pra quem quer praticar esportes!” Brincadeira, rs, não é nada disso… todo mundo sabe como fica essa baixada santista no Revéillon. E se eu entrasse em trabalho de parto no dia 31? A Ivanilde chegaria a tempo? Entrei nas 40 semanas e nenhum sinal do Rafa querer nascer . Soube que minha médica não gostava de esperar mais que 41 semanas. Bom, tomamos duas providências: Primeiro, subimos a serra no dia 31, no contra-fluxo, fugindo da loucura da baixada. Decidimos que se eu entrasse em trabalho de parto entre o dia 31/12 e o dia 05/01, o melhor seria estar em São Paulo. Isso seria possível, pois minha tia Márcia, que estaria viajando, ofereceu seu apartamento para que nós nos hospedássemos e para que o Rafa viesse ao mundo, se fosse o caso. Segundo, comecei a fazer de tudo pra tentar induzir o trabalho de parto, pois também não gostaria de passar das 41 semanas… o medo da cesárea aumentava. Bebi chá de canela com gengibre, caminhei, subi escadas, transei todos os dias, usei a bomba de leite manual. Havia lido que algumas pessoas questionavam a eficácia desses métodos e outras diziam que esses procedimentos podiam tornar as contrações mais dolorosas. Mas como diz meu parceiro, ”nós somos muito descrentes”, fizemos de tudo e achamos que não haveria consequência, rs.

 

Bom, no dia 02, depois de uma longa caminhada, e com as panturrilhas muito doloridas de tanto subir e descer escadas, entrei em trabalho de parto. Comecei a perceber que minha barriga ficava dura, com intervalos regulares… mas eu não sentia dor. Então, lembrei que a doula que havia me orientado até então falou que existia o “falso trabalho de parto”. “É isso”, pensei. Aos poucos, as contrações ficaram mais intensas. Os intervalos é que estavam estranhos pois, desde o começo, eram de menos de 3 minutos!  “Se for trabalho de parto, ele vai nascer rapidinho, devo ser um super parideira”, iludi-me, kkkk. Resolvi deixar a Ivanilde alerta … será que é hoje? Já eram umas 23h30 quando liguei pra ela dizendo que não sabia se se tratava realmente de trabalho de parto, pois eu estava conseguindo falar, as dores eram suportáveis e haviam me dito que não dá nem pra falar durante uma contração. ”Tô tendo uma agora, e tô falando com vc, então acho que não é nada”, disse a ela.

 

 

Não sei o que fizemos até o momento em que ela chegou, que era umas 3 da manhã. As contrações ainda eram bem suportáveis neste momento. Sei que a Ivanilde, acompanhada da Denize, vinha praticamente direto de outro parto domiciliar. Eu definitivamente entrara em trabalho de parto e estava com 3 cm de dilatação. 3? Fiquei empolgada porque sabia que ia nascer… uma vez começado, nada mais podia fazer parar. Por outro lado, com intervalos tão pequenos entre uma contração e outra, pensei que a dilatação poderia estar maior … aliás, na madrugada, os intervalos aumentaram para cerca de 5 minutos. Bom, certamente eu não era uma superparideira, rs.

 

 

Com a luz do dia, vieram as dores mais fortes… creio que tudo que fizemos para induzir o parto pode ter contribuído para esses intervalos tão pequenos logo no início do parto. Quanto às dores, depois de ler tantos relatos maravilhosos de parto domiciliar, eu achava que as minhas eram as mais fortes do universo.

 

 

Ao longo do dia, vomitei 3 vezes, de tanta dor. As meninas (Ivanilde e Denize) me apoiaram o tempo todo, ainda que eventualmente revezassem para que uma pudesse descansar. O trabalho de parto não é fácil pra ninguém. Como diz uma tia do Gustavo, se fosse fácil, não chamaria “trabalho”, seria a “festa” do parto.

 

 

O Gustavo foi incrível, não sei como teria sido sem ele… no apartamento da minha tia, pude receber, dessas três pessoas, um tratamento afetuoso e paciente. Massagens, orientação e sugestões quanto à respiração e posturas, palavras incentivadoras. Perdi a conta de quantas vezes fui ao chuveiro aliviar as dores. Obs: Não consegui deixar de pensar no “rodízio”, palavra usada pelo nosso querido governador pra mascarar o “racionamento” de água, que estava rolando em sampa. Que o pessoal do prédio da minha tia não leia esse depoimento, rs.

 

 

Bom, quando eram umas duas da tarde, eu já não acreditava que conseguiria, falei em desistir uma meia-dúzia de vezes… sempre ouvi palavras de incentivo, e então podia prosseguir. Os braços do Gustavo já tremiam de tanto me segurar quando eu agachava pra ficar de cócoras. Aconteceu algo que não sei explicar direito, sobre uma posição não tão boa da cabeça do bebê, a cabeça deveria rotacionar e isso não estava rolando. A Ivanilde fez algumas intervenções em relação a posturas, exercícios, manipulação. Ela chegou a perguntar se eu estava me incomodando com as manobras que ela fazia… Eu disse: “Como?  Nada pode incomodar quando você tem contrações”… as contrações são realmente quase insuportáveis. Pela primeira vez, me senti uma mulher fraca, cansada, logo eu que carregava seis caixas de cerveja nas cervejadas da faculdade, eu que já fui correndo do sítio do meu amigo até a praia, sem tênis, e nunca dava o braço a torcer quando se tratava de qualquer esforço físico.

 

 

Num dos exercícios, após uma manobra muito doida que a Ivanilde fez, que incluía uma posição que era muito desconfortável pra mim, algo mudou consideravelmente. Parei de gemer durante a contração, parei de contrair todo o meu corpo quando tinha a contração, já não pensava em nada, as dores se atenuaram, parecia que eu estava lá, mas meu corpo físico estava “amortecido”.  Acho que se tratava da tal “entrega”, que a Ivanilde vinha falando há horas. Creio que a grande diferença entre os casais adeptos do parto domiciliar e a gente é que a gente é muito cético, pragmático, “estatístico”, rs. Ainda bem que a Ivanilde e a Denize são o oposto disso. São a fé em pessoa. Ainda bem. A “entrega”, a tal “partolândia” veio em hora certa. Não só eu estava exausta, mas o Gustavo também, acho que ele também chegou a duvidar que seria possível. Fui para o banquinho e, recostada no Gustavo, comecei a sentir aquela força involuntária, aquela vontade de fazer cocô… percebi que esse era o momento em que eu deveria ter começado a fazer força, o corpo avisa… por conta própria, eu havia começado a fazer força muito antes, depois senti as consequências:  a força no períneo está voltando ao normal agora, dois meses depois – por isso os exercícios pro períneo são tão importantes, não dá pra deixar de fazer… até aquele aparelho, o Epi-no, eu comprei pra me preparar. Mas gostaria de ressaltar que sim, voltou ao normal e mulheres que fazem cesárea também podem passar por isso.

 

 

Voltando ao que interessa:  como disse, tudo ficara mais fácil, eu sabia que era questão de tempo , estava no final (agora de verdade, rs).  Fiz força algumas vezes, a Denize estimulava as contrações dando aquelas beliscadinhas com todos os dedos na barriga (ô coisinha chata, rs). Isso foi preciso porque, depois de quase 19 horas de trabalho de parto, a natureza foi camarada comigo e os intervalos entre uma contração e outra eram de quase 6 minutos. De qualquer forma, não é isso que se espera de um período expulsivo… Enquanto eu fazia força, o Gustavo fazia o som de que estava fazendo força também, bem no meu ouvido (Uhnnnnnnnn)… e isso me dava mais força ainda… acho que umas duas contrações antes do Rafa nascer, eu dei uma “apagadinha” porque ouvi as pessoas dizendo “respira, menina, respira” … abri os olhos e, em mais umas duas contrações, ele nasceu. A primeira coisa que eu senti foi alívio… acabou; logo em seguida, com ele no colo, eu sem saber segurar, ele escorregando, senti uma emoção muito grande! Como eles nascem sabendo mamar? E pra quem não sabe, o pacote de parto domiciliar incluiu canções de recepção entoadas pela Ivanilde, que tem uma voz linda de morrer (ou de viver, afina falamos de um nascimento, rs). Que privilégio, poder ter meu filho mamando logo ao nascer, junto de seu pai e de uma dupla tão atenciosa e competente! É nesse momento que você pensa que é capaz de passar por tudo novamente, as dores desaparecem como mágica, não senti nada para expulsar a placenta… depois, o único incômodo foram os 3 pontinhos que tive que tomar, mas também quase não senti, pois já estava com o Rafa no peito e a anestesia pegou rápido. Tive direito também, momentos depois, de um super banho, em que até secaram meus pés e pentearam meus cabelos.  Passei o dia seguinte com pressão baixa, mas depois melhorou. Relato gigante, duvido que alguém chegou até aqui, rs… O pequeno, que nasceu com 3,250Kg já está com dois meses, e é desses que mama sem parar. Eu cheguei a questionar se isso era normal, se eu deveria atender a toda a demanda dele, e “sim”, foi a conclusão à que cheguei, mas isso é história pra outro relato…

 

 

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