Relatos de parto

O PRIMEIRO DE MUITOS: Relato do primeiro parto domiciliar da Ivanilde: narrado pela mãe Simei Fenske Santos – Nascimento do Isaac Júnior – 10/12/2003

 

Um pouco da história

             Tudo aconteceu durante meu último ano de enfermagem, em 2003. Eu estava tendo a disciplina de obstetrícia e tinha chegado a hora de fazer os estágios no centro de parto e ver as mulheres parindo. A disciplina me interessou muito por estar grávida e poder acompanhar e entender o que estava acontecendo com meu corpo. Foi nessa disciplina que conheci a professora Ivanilde. Gostei muito das aulas teóricas dela. Digeria com muito interesse cada informação e me encantava as história que ela contava pra exemplificar a teoria que estava ensinando. A Ivanilde é uma professora muito amiga. Ela tem tanto carisma que desde o  primeiro dia de aula parece que nós alunos  já a conhecíamos  por muitos anos de tão humana e aberta que ela é.

            No estágio, fiquei encantada de ver o tratamento que mulheres do SUS recebiam nas mãos da Ivanilde. Dois anos antes eu tinha tido um parto normal em hospital particular e não encontrei lá o cuidado humano, personalizado e holístico que essas pacientes estavam tendo. Ali entendi que ela não trabalhava por dinheiro ou recompensa humana. Que não era o quanto a paciente estava pagando que determinava a qualidade da assistência. Ela trabalhava pra honra e glória de um Deus que ela tinha prazer em dividir e cantar com sua voz sempre tão agradável.

O início da decisão

            Na minha primeira gestação, dois anos antes de conhecer a professora, meu esposo queria muito um parto domiciliar mas não encontramos ninguém que estivesse disposto a fazer. Agora estava perante mim uma segunda oportunidade e eu sabia pra quem pedir. Com 6 meses de gestação, durante o estágio no CPN (centro de parto normal) do HGIS (Hospital Geral de Itapecerica da Serra-SP) após ter visto a qualidade de assistência que aquelas mulheres recebiam perguntei pra Ivanilde se ela acompanharia meu parto em casa. Ela olhou dentro dos meus olhos e com toda a sinceridade disse: “Eu nunca fiz isso antes.”

           Eu fiquei me perguntando o que ela queria dizer com isso. Se a resposta era sim ou não, ou se dependia de eu ainda querer. Continuei esperando a resposta dela em silêncio, não estava preocupada se ela tinha experiência ou não, sinceramente pra mim não fazia diferença. Eu sabia que eu e meu bebê estaríamos em mãos que eram usadas como instrumentos do Senhor. Depois de alguns segundos, que pareceram horas, ela disse: “Mas eu faço.” Fiquei  super radiante! Disse pra ela não se preocupar que eu providenciaria tudo. Mal podia esperar pra contar pro meu esposo, enfermeiro intensivista (de UTI), que teríamos nosso bebê no conforto simples do nosso lar!

Os confrontos

         Os meses se passaram rapidamente, continuei fazendo o pré-natal com uma médica obstetra muito querida. Se eu precisasse de uma cesariana era com ela que gostaria de ter. Durante uma consulta de pré-natal comentei com ela sobre nossos planos de ter um parto domiciliar. Ela ficou furiosa com tamanho absurdo. Me falou de todos os riscos e complicações que podem acontecer. Que eu poderia morrer, que o bebê poderia morrer (a propósito, o parto hospitalar não está livre dessas possibilidades). Saímos da consulta em paz, tudo o que ela falou pra nos amedrontar não nos causou ansiedade.

            Contamos pra nossa família e foi o segundo choque. Parecia que estávamos dentro da sala com a médica novamente. Os amigos ligavam em casa e tentavam nos fazer desistir da ideia maluca, e isso passou a incomodar muitos que nos rodeavam. Não importava falar a eles dos trabalhos científicos que mostram que um parto domiciliar de baixo risco é tão seguro quanto um hospitalar (ou mais!). Acharam que estávamos loucos. Decidimos não comentar mais e deixar o assunto morrer, por amor a eles e para poupá-los. Percebemos que essa ideia os incomodava muito e estava causando uma ansiedade e preocupação que nós não tínhamos.

           Estávamos totalmente em paz e tranquilos. Não que eu achasse que nada daria errado. Nessa altura já tinha concluído a disciplina de obstetrícia e sabia que complicações podem acontecer. Mais do que isso, meu parto anterior havia sido hospitalar e teve complicações. Minha placenta não saiu no tempo previsto e as manobras que poderiam ser feitas não resolveram o problema. O médico  teve que fazer uma extração manual para parar a hemorragia pós parto que é a causa número 1 de morte materna. Estava ciente que isso poderia acontecer novamente.

Mais um membro para a equipe

           Continuamos os preparativos. Em uma consulta de rotina pedi pro pediatra da minha filhinha ser o pediatra do próximo bebê também e ele aceitou imediatamente. Ficamos supuuuuuuer felizes, mas nossa alegria durou pouco. Ele gostaria de saber em que maternidade o bebê iria nascer pois ele gostava de acompanhar seus pacientes desde a sala do parto.

           Essa eu não esperava….Se soubesse não teria pedido pois tínhamos tomado a decisão de não contar pra ninguém. Senti meu corpo ficando mole pois eu não queria perder um pediatra tão excelente. Balbuciei bem baixinho “em casa”, parecia que nem tinha forças pra falar, fiquei espremendo meus olhos esperando a enxurrada. Pra minha surpresa, ele sorriu e disse com muita empolgação: “PARTO DOMICILIAR??!!! Posso participar?” Não conseguia acreditar nos meus ouvidos, me senti numa experiência de Maria Madalena, esperando as pedras e recebendo a graça. Louvado seja Deus!!!!!

A preparação

          O tempo passou, preparei o material – pois minha querida e agora oficial parteira estava sempre muitíssimo ocupada. Pesquisei na internet o que se usa em um parto domiciliar e meu marido me ajudou a providenciar.

          Aos nove meses, dois dias antes da minha formatura, a Ivanilde me examinou: eu estava com 3 cm de dilatação. O bebê podia nascer a qualquer momento. Percebi que provavelmente não participaria da formatura, mas, a formatura veio (na cerimônia eu estava com 5 cm de dilatação).  A Ivanilde foi nossa professora paraninfa e felizmente o bebê se comportou e ela pode fazer o discurso de formatura, inclusive o parto era um dos tópicos do discurso.

 O grande dia

          Mais dois dias se passaram e nada. Precisava ir na consulta médica e sabia que, se eu fosse, ela não me deixaria voltar pra casa pois já estava com 7 cm de dilatação. Liguei pra Ivanilde e  pedi pra ela vir me ajudar ter o bebê naquele dia. Minha querida amiga Tati veio me visitar naquela manhã, ficou sabendo dos nossos “planos secretos” e se disponibilizou em filmar, o que felizmente aceitamos.

           A Ivanilde chegou por volta de 13h e trouxe uma outra parteira, minha professora também, tudo como tínhamos combinado. Meu esposo e eu estávamos radiante pois o grande dia tinha chegado finalmente! Conversamos, rimos muitos, até assamos bolo.

           As 15h  entrei em trabalho de parto intenso, com  contrações muito doloridas.  As 17h já não queria mais ter parto domiciliar, a alegria e o sonho tinham acabado, queria o suquinho nas costas (anestesia)  e queria imediatamente!!!! Comecei a pedir que me tirassem daquele lugar e me levassem pro hospital, eu queria uma epidural pra ontem. Camila, a outra parteira,  abaixou ao meu lado e começou a falar comigo. “Simei foi você que planejou isso e  é decisão sua sair daqui. Se você quiser ir pro hospital precisamos ir agora. É isso que você quer? Nós não vamos te segurar aqui.” Por alguma razão (acredito que divina) aquela conversa no pé do ouvido enquanto estava agachada em um banco me colocou em uma situação de tomada de decisão. Me recuperei emocionalmente e baixei o veredito: “diga ao povo que fico”.

            Depois de ter decidido ficar tudo ficou melhor, consegui lidar com as contrações e a companhia da Ivanilde e suas “epidurais” naturais (banho, massagem, compressa quente, etc.) me trouxeram grande alívio. Meu esposo exerceu um papel fundamental, sempre ao meu lado, me encorajando, me cobrindo pras fotos (obrigada querido), fazendo vento pra me refrescar e massageando minhas costas.

                O pediatra, Dr. Carlo Eduardo (Kaka), chegou às 21h, para a nossa alegria. Veio da zona leste diretamente pro Capão Redondo. Entre as contrações orei que ele tivesse um carro pra ir embora pro Sumaré, onde ele mora, quando acabasse o parto. Aqueles que moram no Capão Redondo me entendem :).

O nascimento do Isaac

           Estávamos todos no quarto o clima era de paz, tranquilidade, privacidade e conforto. A luz da lua imensa entrava pela janela. Estava num lugar perfeito pra ter meu bebê, no aconchego do nosso lar com as pessoas que eu amava. À meia-noite o lindo Isaac nasceu, com a mão na cabeça batendo continência. Períneo íntegro (sem episiotomia ou lacerações) graças à boa vontade da Ivanilde de esperar pacientemente o vai e volta da criança.

           O Dr. Carlos (pediatra) esperou que eu tivesse contato com meu bebê por alguns minutos (claro, observando cada movimento e avaliando com os olhos), e só depois que meu marido cortou o cordão, ele pegou meu bebê para o exame físico.

           Enfim estávamos todos muito felizes porém a placenta ainda não tinha saído. Sabia que isso poderia acontecer pois já tinha acontecido no parto anterior. Porém no hospital para a situação ser resolvida recebi uma anestesia geral e apaguei por horas e só pude ver minha bebê e segurá-la umas 10 horas depois do parto.  Não queria que isso se repetisse. E não se repetiu.

            Depois do tempo recomendado para aguardar, a  Ivanilde me deu a notícia que eu já estava esperando: “Preciso retirar sua placenta manualmente. Você teve um descolamento parcial e não pode ficar sangrando.” Cinco minutos mais tarde minha placenta estava pra fora e completa (não ficou nenhum resto dentro de mim) graças ao bom Deus! A dor passou, meu bebê estava nos meus braços novamente, minha filhinha e minha irmã chegaram e a festa continuou, com abraços, choros, risadas e muita paz.

            O Dr. Carlos e a Ivanilde voltaram pra visitas domiciliares até eu receber “alta”.

       Foi uma experiência tão significativa que mudou minha vida! Um ano mais tarde voltei pra escola e me tornei uma parteira também. Queria ser uma Ivanilde, e poder fazer por outras o que ela fez por mim. Hoje, 11 anos mais tarde, ainda consigo sentir a alegria daquele momento em cada parto que assisto como parteira aqui no EUA, onde moro.É muito bonito ver como os médicos apoiam as mulheres que decidem ter o bebê em casa e aceitam ser o retaguarda da parteira, caso ela precise transferir  a paciente pro hospital.

        A parteira aqui faz todo o pré-natal, a gestante passa apenas em uma consulta com o médico pra ele prescrever todas a medicações a serem compradas que podem ser necessárias no parto. Não sei como está essa situação no Brasil agora, mas algumas das gestantes acham que estou aqui porque como parteira não teria emprego no meu país  (por ser um país campeão em cesárias). O pessoal aqui assiste isso e não consegue entender como nós mulheres deixamos isso acontecer conosco.

            Louvo a Deus por Ele ter colocado a Ivanilde, o Dr. Carlos, a Camila, a Tatianna e  meu querido esposo na minha vida e por ter me chamado pra essa profissão tão linda.

            Para a Ivanilde e pro Dr. Carlos esse foi o primeiro de muitos partos domiciliares. Agradeço a Deus por ter providenciado uma equipe tão especial, disposta a sair do conforto da rotina e dos procedimentos e andar a segunda milha por uma “paciente” que representa todas as demais mulheres brasileiras que estão buscando uma experiência mais significativa.