Relato de parto da Monica Uratsuka D’Ávila – Nascimento da Lais – VBA2C domiciliar – 27/10/2014

Quando alguém brinca que as mulheres esquecem o que é passar pelo trabalho de parto (e muitas vezes pela gestação) para manter a permanência da espécie, eu tenho de concordar. Faz uma semana e já está ficando tudo nebuloso…

 

A primeira coisa que eu sabia é que seria domiciliar. 2 cesarianas atrás, um trauma de hospital e a pressão das pessoas na outra gestação foram o suficiente para me mostrar que eu não queria hospital.

 

O PARTO

 

Começou no chá de despedida de barriga, sábado dia 25 de outubro. Eu queria ver amigas que não pude na gravidez porque estava sem conseguir saracotear pelo mundo, então começou às 16 horas e fui dormir era meia-noite e uns quebradinhos! A Dani e a Carla, minhas vizinhas e amigas do coração, me ajudaram no chá. Aliás, nem deu tempo de agradecer direito nos dias seguintes… No chá tinha Braxton-Hicks a cada 30 minutos. Sem dor, normal. No domingo, 6 horas da manhã eu acordei com uma pontada da BOA. Ficou um minuto, mas como eu estava deitada e sonada, pensei “será”? E dormi de novo. 6:30, lá veio outra. Dormi de novo. Às 7:40 veio uma que eu levantei, porque deitada não dava. E resolvi que a partir da próxima ia contar os tempos, então às 8:00 eu comecei a contar. Cada 15 minutos, 10 minutos, variava bastante. Avisei a Ivanilde que provavelmente estava em pródromos (nada, era o latente malvado!) e passei o dia bordando no sofá e cronometrando, saímos para votar e assim ficou o dia todo. Lá pelas 18 horas achei que a coisa podia demorar a engrenar então resolvi tentar dormir. Aí ou elas atenuaram ou eu não dei bola, vieram a cada 35/40 minutos e consegui dormir até umas 21 horas. Depois… Ah, depois… A cada 15 minutos, reduzindo e voltando de tempos em tempos.

 

Como o Raul tinha trabalhado na madrugada de sábado, achei melhor deixá-lo dormir o que desse enquanto ia descobrindo qual o melhor sistema para encarar, porque eram contrações “de respeito”. Fui pro computador e pensei: opa, não acabei minha plaquinha (bordei uma plaquinha para por na porta dizendo parto domiciliar…) e fui pra máquina de costura. Corta paninho, contração (levanta e rebola), corta outro, contração, costura, contração… Levei 3 horas para fechar um negocinho de 15 minutos.

 

Aí umas 4 e pouco da manhã, já tendo passado pelo chuveiro, bola, deitada, em pé e entrando em intervalos de 4 minutos, achei que era hora, acordei o moço e pedi para ligar para a Ivanilde. Aliás, ela também tinha passado por um parto no dia anterior e estava mortinha de cansada, então eu segurei o que deu!

 

Chuveiro, sofá, bola (horrível para mim em TP) fui passeando de um para outro. Nesse período eu descobri que aquela história de apertar a mão de alguém (ou morder o travesseiro) só servia para não gritar alto na madrugada, mas que não melhorava em nada a dor das contrações. Aliás, travava TUDO fisicamente. Quando a Ivanilde chegou, por umas 6 da manhã (lembrando que a gente já fica meio doidinha e não sabe mais hora, sequência e só lembra que primeiro vem contração e o expulsivo é no final), ela avaliou a dilatação do colo: 6 cm. Bom, mal não estava. Eu jurava que estava plenamente consciente do mundo, mas já devia estar zureta. Raul arrumou e levou as meninas para a escola (prova e um pouco de paz na manhã, pelo jeito a coisa ia ser longa…). Enquanto a Ivanilde ia arrumando a banheira (banheira, água, água, água!!!!), fui pro chuveiro e lá foi o tampão. Dali a pouco chegou a Dhiane,veio dar um oi e ficar de olho em mim. As contrações já estavam a cada 2 minutos, 1 minuto e quando a banheira encheu, pulei lá dentro a 40 graus (meu marido achou que ia esfriar rápido aquele monte de água… rsrsrs) e relaxei.

 

Nos intervalos eu dormia (afinal, já fazia 24 horas de contração DOÍDA), tentaram me dar comida, mas não dava tempo, então tomei água e um monte de suco de melancia (bão). Elas brincaram que eu era uma parturiente que pouco dava trabalho, porque eu não tinha dor nas costas e não queria ninguém me pegando, eu levantava, abaixava, e queria fazer tudo sozinha. Paninho pra refrescar a testa (era ofurô, água de cozinhar camarão…), eu preferia “eu fazendo” e elas só estavam me monitorando e tentando me dar água e comida, ou paninho, esfriando ou esquentando a água.

 

Umas 11 horas ligam da escola da Rafa: febre. Raul foi buscar e a baixinha pulou na água comigo. Não sei mais quanto tempo ficamos, mas eu pensava que precisava sair da água (Eu estava molinha, de tempos em tempos esfriávamos um pouco a água e elas ficavam conferindo minha pressão, risco de baixar muito) e em cada intervalo de contração acordava com a dor da próxima… rsrsrs. Ou seja, devo ter pensado umas 300 vezes em sair da água e não consegui.

 

Lembro que nessa hora fiquei rolando de posições e a Ivanilde estava mostrando a linha púrpura para a Dhiane (eu tive, uhu!), mostrando que é mais uma opção para não ficar tocando porque o corpo mostra… O tamanho da linha é o tanto de dilatação. Nisso, avaliaram que meio-dia, mais ou menos, eu estava com 8 cm. Aí meu marido brincou que, fazendo uma conta de padeiro (pelo tanto que eu dilatei até as 6 da manhã mais o tanto que dilatou até meio-dia) eu devia parir lá pelas 19 horas, considerando que eu tinha optado por ficar dentro da água que deixava o TP mais lento. Ele acertou bonitinho…

 

Isabele chegou em algum momento disso tudo e passava por ali para me dar oi. Não sei em que horas as meninas foram assistir Malévola. A Ivanilde então perguntou se eu não topava sair da água e ficar mais vertical para auxiliar a descida (em algum momento foram me dando um pouco de mel e água e tentavam me dar comida, mas não dava tempo entre as contrações). Como eu já pensava nisso há umas horas, me ajudaram a sair e fomos tentar banqueta, cama, chuveiro…

 

Nisso, pela linha púrpura, estava com 9 cm, faltando só a famosa “cabeçada da bebê”. Aí ela pediu para avaliar a posição da cabeça da bebê, porque estava um pouco demorado. Topei e ela fez um toque, viu que estava certinha com um pouco de edema no colo, mas como a barriga era muito grande e pra frente ela dava uma defletida. Aí fui voltar para o chuveiro e a dor deu uma apertada de tal jeito que avisei que ia vomitar. Lá se foi meu suquinho de melancia e um restinho de energia que eu tinha.

 

Eu perguntava as horas de tempos em tempos e em algum momento desses, entre chuveiro e ficar em pé, falei que precisava descansar (hahaha) e tentei deitar para dormir um pouco. Óbvio que não rolou, né? Deitei, mas a contração ficou de 1 a 2 minutos de intervalo. Nessa hora começou a dar uma dorzinha nas costas e pedi massagem para a Dhiane.

 

Nisso Ivanilde perguntou se podíamos tentar ajudar a Laís a descer, com direcionamento da cabeça para compensar a barriga (deitada de meio lado com uma perna fletida). Topei de novo e lá fomos nós, eu empurrando um pouco e ela direcionando (foi aí que a bolsa rompeu? Sei lá…) com a mão. Aí abriu todo o colo e eu comecei a sentir a tal pressão lá embaixo. Mas não veio a tal força sem controle para expulsar, só uma pressão.

 

Ela sugeriu ir para a banqueta e o Raul me apoiar atrás, tentamos também para ela tentar auscultar a Laís, porque estava muito baixa e ficava difícil. Não conseguiu, mas eu também avisei que a Laís estava AINDA mexendo pacas!!! Sempre achei que os bebês sossegavam, a minha só parou de me socar no expulsivo mesmo! Raul sentou na bola e me apoiou, mas não rolava força ou nada naquela posição. Aí começou a tal pressão e ela sugeriu de eu ir para o chuveiro ou voltar para a banheira (minha ideia inicial era fazer o expulsivo na água) e falei que a banheira, além de longe, não estava aliviando as dores tanto quanto no início.

 

Então fui para o chuveiro. Acho que já era umas 19 horas (ouvi alguém tirando sarro da conta de padeiro do Raul) e nisso a Ivanilde já estava preocupada com não conseguir auscultar a Laís e com o meu cansaço, já que as contrações não davam trégua e eu não conseguia comer. Apareceu um todynho (eca) para eu tomar uma dose de açúcar rápido e comecei a fazer força em cada contração. Acho que foram umas 5 até a Laís sair toda (e até agora eu não senti o círculo de fogo, mas senti o POC… suspiro!) e na hora em que passou eu senti lacerar em cima. Ela veio com a mãozinha do lado do rosto. Toquei se senti a cabecinha dela saindo, pensei ainda como era engraçado que a cabecinha era tão mole que parecia fazer parte do meu corpo e não um corpinho saindo. A Ivanilde aparou e me deu, ela veio molinha, meconiada, sem se mexer. Na mesma hora ela começou a estimular, preocupada. Perguntei do cordão e vimos, tanto eu em cima (a Laís estava no meu peito) e ela na parte que saía da vagina que o cordão estava pulsando. Laís, ainda de olhos fechados, deu uma bocejadinha e eu relaxei. Só me repetiam para eu respirar fundo para oxigenar a baixinha, já que ela não respirava ainda e era placenta quem levava oxigênio. Apgar 7 e 9.

 

Ela não me olhou logo que nasceu (E levou bem uns 5 minutos). Ficou roxinha ainda uns minutos. E enquanto eu respirava devagar (menos do que todo mundo queria, mas eu sou cantora, respiro fundo sem precisar fazer barulho,né? rsrsrs) eu ia sentindo uma coisa de “é minha”, com aquele serzinho no meu colo que compensou tudo. Eu estava com as pernas tremendo, não conseguia levantar e acho que ninguém ia conseguir tirar minha filha dali.

 

A dor da contração realmente nem dá bola depois que nasce (mas eu estava muito dolorida na barriga, no útero). Esperamos parar de pulsar e Raul cortou o cordão, falei dele pegar a Laís para eu levantar e ir para a cama e a Ivanilde falou “não, ela não descola de você. Nós te ajudamos a ir para a cama, se precisar carregar a gente carrega, mas ela não desgruda de você”.

 

Me ajudaram a ir pra cama e lá deram uma limpadinha básica (eu!). Ela ficou pele a pele comigo embrulhada, a placenta saiu e foi avaliada (inteirinha e bonitona), ela mamou, foram avisar as meninas e eu fiquei ali, dando de mamar, minhas duas cheirando a irmã nova, Raul e as duas foram organizar a casa e me dar algo para comer (não me perguntem o que era, eu comi!). Depois de um tempo, vieram pesar e medir (elas já tinham feito avaliação de vitalidade e apgar antes, no “trânsito” entre nascer e ficando no colo), vestir a pequena e devolver para mim (além de ficar batendo foto, né?).

 

Foram 37 horas de TP, 19 horas de ativo sem muita pausa pra descansar, dor porrada o tempo todo (e a encrenca não é a dor, mas o cansaço mesmo), expulsivo acho que rápido (talvez uma hora, hora e meia?) e sei que a decisão de ficar em casa foi perfeita.

 

No hospital, de 6 cm demorar 12 horas para os 4 restantes eu teria ido pra faca. A laceração que tive (períneo foi um raladinho de nada, lacerou foi pequeno lábio pelo punho em riste!), se estivesse no hospital, teria sido dado ponto mesmo eu dizendo NÃO (e eu sei que devia ter dado, mas ainda hoje penso “será que eu teria feito diferente? E me respondo não. A sensação é a mesma, não é racional, era meu limite). Laís molinha, ia direto pra UTI! Não descia, iam dizer que era DCP (sim, dá para ajudar a descer, mas com certeza não é confortável… rsrsrs). Tudo que eu sabia e queria e falei assim ou assado (mesmo não sendo as “mais modernas evidências”, algumas foram como eu queria fazer e como eu suportava fazer) foi respeitado.

 

Lavei a alma. E vejo infelizmente a diferença entre parir e estar no hospital cesariada. Vantagem? A dor das cesarianas ficou tão anestesiada com a maravilha de parir minha filha que eu ando meio “sorrindo bobamente” até agora (Laís já fez um mês!!!). Desvantagem? Agora eu sinto mais ainda a dó pelas mulheres que caem na desnecesárea, naquelas que têm medo do parto, das que são violentadas nos partos anormais nos hospitais e das que são pressionadas com a “ameaça de risco” que leva para a desnecesárea.

 

E também vejo como a maioria dos médicos teria me levado para a faca com MEDO ao invés de propor todas as posições e intervenções depois de esperar a dilatação acontecer. Tenho de admitir que preciso acender uma vela para a Melania Amorim, pois TODAS as dúvidas possíveis que eu poderia ter sobre os riscos eu tirei com ela em alguma conversa de face ou de GOBE e que se eu não tivesse tirado essas dúvidas, teria algum medo. Outros médicos (bons também) teriam limites diferentes. E a Ivanilde, depois, disse que teve alguns medos (as minhas foram as contrações mais fortes que ela já viu por tanto tempo e a bebê mais molinha que nasceu sob o acompanhamento dela… rsrsrs), mas que eu resolvi e mostrei que aqueles medos não era os meus!

 

Como disse ela nas nossas conversas, dentro da segurança, o limite quem dá é você. E ela respeitou TODOS os meus limites. Obrigada, minha parteira!

 

Meu coração e minha família estão inteiros hoje em grande parte por você e pela Dhiane…

 

Veja as fotos:

 

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