Relato: Nascimento de Davi – Parto Domiciliar na Água

A história do Davi começou assim:

 

O INÍCIO 

 

Minha menstruação estava atrasada, mas não me importei muito. Senti uma cólica, aquela fraqueza nas pernas, mas nada de menstruação. Uma noite estava indo ao banheiro a cada 1 hora e achei estranho, mas não sabia que era sintoma de gravidez, apenas desconfiei que pudesse ser. Fiz uma pesquisa no Google e descobri que fazer muito xixi realmente era um sintoma de gravidez.

 

Fiquei aguardando mais alguns dias pra ver se a menstruação descia, até que chegou o grande dia da descoberta. Era domingo, e não era qualquer domingo, era o Dia das Mães, e eu não poderia deixar este dia passar sem nenhuma comemoração, caso estivesse grávida. Eu e o Fabricio fomos à farmácia, compramos o teste e assim que voltamos já fui ao banheiro.

 

_ E aí, Amor?! _Perguntou o Fabricio.

 

_ E aí que está escrito pra esperar 5 minutos, mas eu acabei de fazer xixi e já está dando POSITIVO!

 

Ficamos sem reação, não sabíamos o que fazer, não sabíamos o que falar, nos abraçamos, nossos lábios não diziam muita coisa, mas nossos olhares diziam tudo! Peguei a câmera fotográfica para registrarmos aquele momento tão marcante, pois sabíamos que a nossa vida jamais seria a mesma!

 

A GRAVIDEZ

 

O primeiro ultrassom foi o mais emocionante de todos. Ouvir o som daquele coraçãozinho pulsando naquele ritmo tão forte, parecendo uma locomotiva, foi quando percebi que meus olhos se encheram de lágrima.

 

A gravidez foi super tranqüila, queria eu que todas as grávidas ficassem como eu fiquei. Não tive enjôos, infecção urinária, a pressão estava sempre ótima, glicemia também. Há muito tempo estava assistindo um documentário sobre animais, quando falaram que a fêmea (leoa) não estava reconhecendo o seu filhote pois tinha sido submetida a uma cesariana e seus instintos maternos estavam pouco desenvolvidos. Foi quando decidi que não ia querer ter uma cesárea quando engravidasse.

 

Assim que descobri que estava grávida comecei a ler de tudo sobre gravidez e parto. Descobri então que além do parto normal e da cesárea (já fora de cogitação), eu também tinha a opção do parto natural, que respeita a fisiologia do corpo da mulher e o tempo natural para o desenrolar do trabalho de parto.

 

Achei a idéia ótima, principalmente porque tinha medo até de fazer exame de sangue e adorei a idéia de não precisar ficar no soro e das demais interferências médicas. Além disso, meu bebê nasceria e viria para o meu colo no mesmo instante, mamaria, não seria aspirado e nem pingariam colírio de nitrato de prata em seus olhos.

 

Eu imaginava que todas as interferências que aconteciam no parto hospitalar eram realmente necessárias, mas nas comunidades e sites descobri que não eram e que além de desnecessárias, eram muitas vezes prejudiciais à gestante e ao bebê. Mesmo num possível parto normal, uma interferência desnecessária levava à outra, o que geralmente culminava num parto cesáriano.

 

Falei com o Fabricio, ele não tinha uma opinião formada, então mostrei um vídeo de uma reportagem sobre o parto domiciliar com entrevista de várias mães contando suas experiências e mostrando seus vídeos dos partos. Assim como eu, ele é super “natureba”, então foi fácil entrarmos em acordo e tomarmos essa decisão. Afinal, um parto em casa, não significa um parto sem assistência.

 

Precisava começar logo a fazer o pré-natal, pois com essa espera toda, descobri que estava grávida já com 6 semanas de gestação. Não procurei nenhum obstetra “especial” e nem tinha indicação de ninguém. Sabia que seria como encontrar uma agulha num palheiro se encontrasse um médico que apoiasse a minha decisão. Marquei uma consulta com uma médica que atendesse pelo meu convênio e que o endereço fosse próximo da minha casa.

 

Gostei muito da Dra. Rúbia, muito competente, atenciosa, simpática, deu o seu número de celular na primeira consulta e falou que qualquer coisa poderia entrar em contato, etc. Decidi que não contaria nada sobre a minha decisão de fazer um parto domiciliar para a Dra. Rúbia, pois caso ela fosse totalmente contra eu não conseguiria continuar fazendo meu pré-natal com ela.

 

Acabamos conversando sobre o assunto quando eu já estava com 36 semanas de gestação. A Dra. Rúbia ficou preocupada com que tipo de profissional que me assistiria, não me deu 100% de aprovação, mas me apoiou. Diante da minha ótima gestação, disse que não via motivos para não dar tudo certo, e ainda falou que muitos enfermeiros estão muito mais capacitados que os médicos para dar assistência num parto vaginal. Outra preocupação era o “plano B”, e mesmo tendo convênio, a Dra Rúbia me aconselhou a ir para um hospital público, caso fosse preciso uma transferência.

 

Ao mesmo tempo em que procurei uma médica, também fui atrás de encontrar uma parteira. Entrei em contato com a Márcia Koiffman através do site da “Primaluz”, mas ela estaria viajando na data prevista para o meu parto e me indicou a parteira Ivanilde. Entrei em contato com ela, que começou a me acompanhar. Todos os exames que a Dra. Rúbia me pedia, eu passava os resultados também para a Ivanilde.

 

Normalmente, as mulheres que escolhem ter um parto domiciliar mantêm isso em segredo para evitar as opiniões contrárias e pressões familiares, pois isto pode abalar o estado psicológico da mulher, influenciando negativamente o trabalho de parto.

 

Bom, eu não consegui esconder nada de ninguém. Quando me perguntavam em qual hospital seria o parto, eu já falava que não seria em hospital, que seria na minha casa. Defendi o parto natural durante a gravidez inteira. Todos ficaram sabendo, a família inteira, os amigos, colegas de trabalho, e qualquer um que eu conversava, o cabeleireiro, etc.

 

Muitos me chamavam de corajosa, me entendiam e admiravam, mas muitos também me chamavam de louca, respeitavam a minha opinião, mas não aprovaram de jeito nenhum, não importando os meus argumentos. Não me considero nem muito corajosa, nem muito louca, me considero uma pessoa bem informada. Jamais OPTARIA por uma cesárea, ou por um parto normal cheio de intervenções, depois de ler tudo o que eu li. A cesárea é uma intervenção médica maravilhosa, quando bem indicada com a intenção de salvar uma vida, jamais deveria ser uma opção. Quem escolhe uma cesária, inconscientemente, quer ter as tudo sob controle, mas não tem noção como as coisas podem sair do controle por causa desta opção. As intervenções, mesmo para um parto normal, precisam ser analisadas caso a caso, e não realizadas “automaticamente”, sem uma real indicação que justifique.

 

Costumo falar que o parto natural domiciliar é lindo, é emocionante, mas quem escolhe ter um parto nessas condições, não está preocupado com a beleza, e nem está sendo levado pela emoção, pelo contrário, toma esta decisão sendo muito racional, analisando o que é melhor, tanto para si, como para o bebê.

 

O PARTO

 

Dia 29 de dezembro eu e Fabricio ficamos conversando na cama antes de dormirmos e eu estava sentindo alguma coisa no ar. Algo estava diferente e falei:

 

__ Amor, o Davi vai nascer.

 

__ É?! Quando?! __ Ele perguntou.

 

__Não sei, mas está perto!

 

Naquela noite acordei sentindo uma contração, peguei meu celular para ver a hora, eram 3:00 horas e as contrações não pararam, não consegui mais dormir. A cada duas ou três contrações eu tinha que ir ao banheiro fazer xixi, e também tive diarréia. As 4:00 horas resolvi começar anotar a hora num papel cada vez que vinha uma contração e estavam regulares, praticamente a cada 10 minutos sentia uma contração.

 

Às 05h00min horas o Fabricio acordou, falei que estava tendo contração a cada 10 minutos e ele ficou acordado comigo até as 06h00. Às 07h30min quando ele se levantou, falei para ele que poderia ir trabalhar pelo menos até a hora do almoço, se diminuísse o tempo entre as contrações, ou se elas ficassem mais fortes, eu o chamaria antes. Pedi que antes de sair de casa ligasse para a Ivanilde e avisasse das contrações. Eu não ficaria sozinha em casa, pois mãe tinha vindo do Paraná e estava comigo já há alguns dias.

 

Eu também me levantei, e ao contrário do que imaginava, as contrações diminuíram e o tempo ficou tão espaçado que deixei de anotar, era uma a cada 30 ou 40 minutos. Fiquei pensando que tinha sido um “alarme falso” que tinha tirado a minha noite de sono. A Ivanilde ligou, mas eu falei que estava bem, que as contrações tinham diminuído e que se voltassem mais ritmadas eu ligava pra ela novamente. Mesmo assim ela achou melhor vir em casa para ver como eu estava.

 

Ela chegou por volta das 16:00 horas e me examinou, o Davi estava bem e eu estava com 2,5 cm de dilatação. A Ivanilde falou pra eu tentar descansar, já que não tinha dormido durante a noite, mas eu fiquei deitada e não consegui dormir. Ela já estava com todo o material necessário, e meu marido foi ajudá-la a tirar as coisas do carro.

 

No final da tarde as contrações voltaram a ficar mais ritmadas e mais doloridas também. Fui ao banheiro e estava perdendo o tampão mucoso. Comecei a me movimentar, andar, subir e descer escadas. A partir daí, perdi a noção do tempo, não olhei mais no relógio. Já era noite e falei para o Fabricio descansar um pouco. A Ivanilde fez uma massagem maravilhosa com óleo de arnica e eu continuei me movimentando e fazendo exercícios na bola. Várias vezes ela pegava o sonar para monitorar os batimentos cardíacos do Davi, media minha pressão e contava quantas contrações eu estava tendo a cada 10 minutos.

 

A Ivanilde perguntou se eu queria outro exame de toque, mas eu estava com medo de não ter progredido muita coisa. Aceitei fazer o exame e já estava com 6 cm. Durante o exame a bolsa rompeu, o líquido amniótico estava clarinho e as contrações começaram a ficar muito mais fortes. Faltava pouco, então a Ivanilde ligou para o seu marido, Enéas, também enfermeiro obstetra que nos auxiliaria durante o trabalho de parto, e também para a Brígida, fotógrafa e jornalista que registraria o parto e escreveria uma matéria sobre parto domiciliar.

 

Acordei o Fabricio para ele encher a banheira inflável e fui com a bola para baixo do chuveiro. Já estava muito cansada, sempre cochilava entre as contrações, fiquei com medo de dar um cochilo mais pesado e cair da bola, então saí do banheiro e fui com a bola para o quarto. A Brígida chegou junto com o Enéas no meio da madrugada.

 

Neste momento o Fabricio começou a encher a banheira de água. Nosso quarto é grande e seria o local do parto. Ele havia feito uma adaptação da mangueira na saída do chuveirinho no banheiro para poder encher a banheira. Aquela banheira é perfeita, tem largura e profundidade o suficiente, o fundo também é inflável, e tem uma alça de cada lado pra ajudar na movimentação. A água quentinha é relaxante, ameniza bastante a dor. Cada vez que vinha uma contração eu segurava nas alças da banheira e ficava de cócoras dentro da água.

 

O Fabricio ficou comigo o tempo todo, foi o meu “doulo”. Quando vinha uma contração doía bastante a minha costa na região da lombar, e ele me massageava e a dor ficava mais suportável. Estava calor, a água quente e a dor me deixavam com mais calor ainda, mas o Fabricio estava lá me abanando e me oferecendo uma água de coco bem geladinha. Enfim, ficou o tempo todo preocupado com o meu bem-estar.

 

Minha mãe, coitada, deve ter orado a noite toda, não dormiu nada, estava tão nervosa e tão preocupada que eu não quis que ela ficasse comigo, só apareceu na hora do expulsivo. Ela ficou na sala e depois na cozinha, fervendo a água para manter a temperatura da água da banheira.

 

Depois de um tempo comecei a sentir vontade de fazer força, as dores estavam bem mais fortes, mas a Ivanilde percebeu que eu estava com um pequeno sangramento e pediu para eu sair da banheira para que ela pudesse verificar se o sangue não estaria vindo da placenta. Saí da banheira e me deitei na cama, que estava previamente forrada com lençóis descartáveis. Estava tudo bem, o sangue não era da placenta, a dilatação estava total e o batimento cardíaco do Davi também estava normal. Na próxima contração a Ivanilde pediu para eu fazer força para a cabeça a descer, enquanto ela segurava o colo do útero.

 

A contração veio e eu fiz força. Ainda tive outra contração antes de me levantar, achei que não daria tempo de voltar para a banheira, pois a dor estando eu deitada e fora da banheira era muito pior. Depois que a contração passou me levantei rapidamente e entrei novamente na banheira antes que viesse a próxima contração.

 

Agora faltava pouco, então aquecemos mais a água para ficar na temperatura ideal. Tive mais duas contrações fortíssimas e sempre ficava de cócoras, já sentia uma pressão muito forte e queimava. Eu tentava ficar calma e respirar direitinho. Fiquei em pé para a Ivanilde ouvir novamente o coração do Davi com o sonar, e já foi mais difícil ficar em pé, pois sentia o Davi bem baixo, a bacia larga.

 

Tive outra contração enquanto estava em pé e pensei que ele fosse nascer naquele momento. Achei que a posição ajudou e resolvi permanecer mais na vertical possível, então só me ajoelhei. Veio outra contração e na próxima já senti a cabeça coroar, fiz força e só ouvia todo mundo falando: “Está nascendo!”. Então a Ivanilde segurou a cabecinha do Davi. Fiz mais força, mas o corpinho não saiu, foi quando a Ivanilde percebeu que o cordão estava no pescoço do Davi, ajudou ele a sair e desfez as duas circulares do cordão.

 

Assim que ele nasceu eu já fui sentando na banheira e o meu filho foi colocado em meu colo. A gestação é um período especial, mas eu não sabia o que significava ser mãe até aquele momento. Naquela hora, às 07h35min do dia 31 de dezembro de 2009 nasceram duas pessoas: o filho e a mãe.

 

Fiquei lá curtindo aquele momento, aquela felicidade intensa, admirando minha cria, sentindo seu cheirinho de recém-nascido que nascera tão lindo, limpinho.

 

Depois que o papai cortou o cordão umbilical eu saí da banheira, me deitei na cama, a placenta já havia se desprendido. O Davi veio mamar enquanto a Ivanilde fazia a sutura, pois tive uma pequena laceração na mucosa do períneo.

 

O Davi mamou bastante e depois de saciado, dormiu no meu colo. Estava cansado. Depois foi examinado, nasceu pesando 3,140kg e com 49 cm de cumprimento.

 

Já ouvi falar que a mulher quando passa por essa experiência, se sente mais poderosa, com a auto-estima elevada. Eu acho que uma boa auto-estima não é uma conseqüência, é uma condição. A mulher precisa confiar em seu corpo, e que o corpo que gerou é o corpo capaz de parir.

 

Terminamos aquele momento todos de mãos dadas, orando. Agradecemos a Deus pelo excelente trabalho de parto, por ter dado tudo certo, por nossas vidas, pela vida do Davi e por nossa família que acabara de se formar.

 

E assim termina esta história, no último dia do ano fui abençoada com o maior tesouro que alguém poderia receber. Fechei o ano com chave de ouro.

 

Te amo filho!

 

_Line Sena, mãe de Davi.

 

Veja as fotos:

 

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